No domingo passado você teve a oportunidade de conferir uma nota rápida
aqui no
Ninho da Mente sobre a bilheteria norte-americana na última sexta-feira, 23 de outubro. Coincidentemente o dia de estreia de
Jogos Mortais VI e o dia em que
Atividade Paranormal foi expandido para exibição em mais de duas mil salas de cinema. E se
Jogos Mortais VI tomou um banho de gelo já no dia da estreia, no decorrer do fim de semana o que pudemos apreciar foi um verdadeiro massacre. A sexta parte da saga de
Jigsaw amargou uma indigesta segunda colocação nas bilheterias, conquistando um novo recorde como a pior abertura de todos os filmes da franquia com apenas 14,8 milhões de dólares. Já
Atividade Paranormal reinou absoluto em primeiro lugar obtendo impressionantes 22 milhões de dólares, quase oito milhões a mais do que o segundo colocado. Desde a sua estreia, o filme já acumula um total de 65 milhões. Nada mal para um longa que custou pouco mais de 11 mil dólares para ser produzido.
Recapitulando a história, o diretor estreante
Oren Peli rodou
Atividade Paranormal em meados de 2007 utilizando uma idéia que já havia rendido um pequeno fenômeno oito anos antes, o também independente
"A Bruxa de Blair". A técnica consiste em pegar um tema sobrenatural e produzi-lo como se fosse um documentário, com câmeras, pessoas e situações comuns. No caso de
Atividade Paranormal, a história de um casal que se muda para uma nova residência e começa a presenciar estranhas ocorrências noturnas supostamente causadas por entidades do além, decidindo então deixar uma câmera de vídeo ligada na casa durante a noite. As filmagens duraram uma semana e logo o diretor assinaria com a
Creative Artists Agency para exibir o filme no
Screamfest Horror Film Festival de 2007. Lá distribuiu DVDs para quem tivesse visto a apresentação e quisesse fazer alguma divulgação do trabalho. No mesmo ano,
Jason Blum, executivo da
Miramax Films, se interessou pelo projeto juntamente com seu parceiro e produtor
Steven Schneider. Trabalhando com
Blum,
Peli re-editou o filme e eles tentaram então emplacar uma projeção no festival independente
Sundance Film Festival, sem sucesso. Porém, conseguiram com que
Atividade Paranormal fosse exibido no concorrente
Slamdance Film Festival, que acontece simultaneamente na mesma cidade, dessa vez arrancando críticas apaixonadas de vários veículos especializados e dos fãs de horror presentes no evento.
Mesmo com toda essa rasgação de seda nenhuma grande distríbuidora se interessou pelo projeto obrigando-os a retomar a mesma atitude que tiveram no primeiro festival onde o filme foi exibido, distribuir DVDs para quem quisesse ajudar a divulgar. Sorte deles que uma dessas cópias acabou indo parar nos escritórios da
DreamWorks de
Steven Spielberg, na época ainda ligada a
Paramount Pictures.
Ashley Brooks, produtora executiva da
DreamWorks, assistiu ao disquinho e ficou tão impressionada que passou a infernizar diariamente a vida de seu superior, o então chefe de produção
Adam Goodman, querendo que ele visse o filme também. E ele assistiu. Gostou tanto que fez questão de repassá-lo ao presidente executivo da DreamWorks
Stacey Snider para que ele desse uma conferida. Com todos impressionados com a obra, só restava mostrar ao chefão
Spielberg e decidir se aproveitariam, ou não, o material que tinham em mãos de alguma forma.
Steven Spielberg em pessoa levou o DVD para assistir na sua casa e creio que vocês já
devem saber o que aconteceu. A
DreamWorks/Paramount adquiriu os direitos domésticos e internacionais de
Atividade Paranormal por 300 mil dólares incluindo a possibilidade de lançar futuras sequências.
Spielberg não queria que o filme fosse direto aos cinemas. A idéia era que
Jason Blum produzisse um remake novamente com
Peli na direção e que a refilmagem fosse lançada em DVD tendo o original como material extra para que o público soubesse como tudo havia sido imaginado inicialmente. Durante as negociações,
Blum e
Peli exigiram uma cláusula no contrato garantindo que o filme original fosse exibido em um cinema uma única vez só para ver como a audiência reagiria. Tendo acertado o acordo,
Adam Goodman convidou vários roteiristas a comparecer a apresentação. Ele queria ter uma noção do que escrever e do que poderia ser mexido no script do remake. Durante a exibição, para a surpresa de todos, algumas pessoas começaram a sair da sala de projeção.
Goodman temeu ter tomado uma decisão errada pensando que a idéia havia fracassado, até notar que os espectadores ficaram realmente apavorados com o filme e por esta razão estavam deixando o recinto. Neste momento ele teve a certeza de que a idéia do remake era uma besteira e resolveu mandar para os cinemas a versão original de
Peli.
Ficou acertado que
Atividade Paranormal ganharia as telas em 2008, mas devido ao rompimento entre a
DreamWorks e a
Paramount Pictures o lançamento foi adiado e a estreia ficou no limbo. Nesse hiato,
Oren Peli e
Jason Blum exibiram novamente o filme desta vez para compradores internacionais e uma multidão de adolescentes em um cinema de Santa Monica, com os ingressos colocados à venda esgotados. As reações positivas geradas pela exibição finalmente convenceram
Adam Goodman - que permaneceu na
Paramount, agora como presidente do estúdio - a agendar o lançamento para o outono de 2009 em treze cidades universitárias ao redor dos Estados Unidos. E foi aí que realmente começou a "campanha de divulgação" de
Atividade Paranormal. Um boca-a-boca que gerou uma repercussão semelhante a que à lenda urbana perpetrada por
A Bruxa de Blair causou em 1999. O filme da feiticeira de
Burkittsville vendia uma falsa história a respeito de um grupo de três pessoas que resolveram produzir um documentário com o objetivo de elucidar um antigo mistério. Munidos de suprimentos e câmeras de vídeo, os jovens teriam se perdido em uma floresta na cidade à procura de vestígios da tal bruxa. Eles nunca mais foram vistos. Anos depois, alguma alma caridosa supostamente encontrou as fitas gravadas pelos azarados aventureiros e as cedeu a
Artisan Entertainment para que os produtores respeitosamente divulgassem a verdadeira história ao conhecimento público. Deu tão certo que até hoje ainda existem pessoas que acreditam que a papagaiada realmente aconteceu.
Já no caso de
Atividade Paranormal a questão foi diferente. Nada de histórias inventadas ou de tentar gerar apego real ao sobrenatural. Só foi preciso criar um
site oficial bem simples e incitar internautas a exigirem que o filme fosse exibido nas cidades onde não havia sido anunciada a projeção. Uma campanha de sucesso que contou a ajuda maciça de diversos sites especializados em cinema. Antes da estreia, mais de 250 mil pessoas já haviam manifestado uma posição exigindo que o filme passasse em sua região. A
Paramount não teve alternativa e estendeu a exibição para mais vinte cidades com três sessões, uma na quinta-feira, uma na sexta-feira e uma no sábado, todas após a meia noite. Só no primeiro final de semana o filme arrecadou 535 mil dólares, ou seja, se pagou mais de 30 vezes. A
Paramount soltou as asas e expandiu a exibição para 43 salas de cinema em todos os horários no fim de semana seguinte. Prometeu também que se as exigências no site atingissem a um milhão de pedidos, o filme seria distribuído ao redor dos Estados Unidos em escala integral. Dito e feito. Na referida data,
Atividade Paranormal invadiu a lista de bilheteria dos cinemas norte-americanos em terceiro lugar com mais de 7 milhões de arrecadação, além de superar a marca de um milhão de exigências no site. E na semana passada alcançou o primeiro lugar na venda de ingressos. Segundo o jornal
Los Angeles Times, a
Paramount já demonstrou interesse em produzir uma continuação do fenômeno.
Parace-lhe familiar? Não? Então vamos a um rápido resumo:
Jogos Mortais começou a tomar forma em 2003 após o diretor estreante
James Wan em conjunto com o roteirista, também estreante,
Leigh Whannell, realizar um curta-metragem (bem curto mesmo, só tinha 9 minutos) e apresentá-lo aos produtores
Gregg Hoffman e
Oren Koules. A cena em questão centrava-se em um indivíduo - interpretado pelo próprio
Leigh Whannell - sendo interrogado por um policial enquanto contava uma impressionante história de como havia conseguido escapar de uma armadilha mortal arrancando uma chave de dentro do estômago de seu companheiro de cela.
Hoffman e
Koules se interessaram e resolveram desembolsar 1,2 milhões de dólares para bancar a produção. Dezoito dias depois ela foi finalizada. Em 2004 foi exibida no
Sundance Film Festival. Foi adquirida pela
Lionsgate que resolveu lançá-la nos cinemas e por fim acabou arrecadando um total de 55 milhões de dólares apenas nos Estados Unidos. Logo foi anunciada uma sequência que saiu pouco mais de ano depois.
Sim, meus amigos.
Atividade Paranormal goza de muitas semelhanças com o primeiro filme da franquia
Jogos Mortais. Franquia essa que está aí anualmente desde o lançamento nos brindando com uma nova produção a cada halloween. Franquia essa que se tornou a mais lucrativa da história das sagas de terror, superando ícones dos anos 80 como
Jason Voorhees e
Freddy Krueger. Franquia essa que vinha comemorando topos de bilheteria. Até agora.
Terá o reinado de
Jigsaw chegado ao fim como a série de terror preferida da presente geração? Irá o sobrenatural superar as mirabolantes armadilhas do assassino que não mata ninguém? Provavelmente não.
Jogos Mortais, o primeiro e insuperável filme da franquia, ofereceu-nos uma intrigante história, uma premissa extremamente interessante, e toda a tensão que a
geração Pânico nos negou. Tudo isso aliado a uma reviravolta final surpreendente. Aos produtores, ofereceu rios de dinheiro que se comparados ao pífio investimento em produção e divulgação, deixariam qualquer um com vontade de lucrar o máximo em cima. E é o que continuam fazendo até hoje. Concorde você ou não, a franquia
Jogos Mortais não passa de um imenso caça-níqueis, assim como foram as sagas de
Jason e
Freddy nos anos 80. A diferença é que desta vez, os produtores tiveram algo que os seus predecessores não ousaram ter que é respeito pelo espectador. No segundo filme da franquia, ganhamos sanguinolência aos baldes e um vilão para se identificar. Daí para então, anualmente acompanhamos o desenrolar da história esperando ansiosamente pelo desfecho, como em uma novela gore. Algo que até agora se pôde confiar mesmo que o resultado seja um filme apenas razoável, como a parte 5. Assim esperamos que seja o sexto filme. E dele em diante. Os elementos que consagraram a série estarão lá. O roteiro, por mais absurdo que tenha se tornado, tende a manter a coerência com a história. E as participações e pequenos mistérios espalhados pela franquia voltarão. Lembre-se que até chegaram a contratar uma pessoa de um filme anterior só para aparecer morta em cena em um filme seguinte.
São fatores como esses que levam as pessoas aos cinemas. A esperança de serem surpreendidas, os baldes de sangue, o vilão personalizado no carisma do ator
Tobin Bell e uma história sendo contada. E é por isso que
Atividade Paranormal e suas inevitáveis sequências não conseguirão desbancar a franquia. Mesmo com um primeiro filme excelente e assustador e mesmo que os próximos filmes sejam produzidos com todo o esmero na tentativa de manter a coerência, não há como continuar uma história de fantasmas por anos a fio a ponto de atingir o patamar ao qual
Jogos Mortais chegou. O próprio
"A Bruxa de Blair", tão incrível quanto o recente fenômeno de
Oren Peli, não conseguiu tal feito. Supostamente não deveríamos ter acompanhado ano após ano o desenrolar da saga da bruxa com todos os detalhes? Não seria óbvio tentar arrastar a série depois da impressionante arrecadação do primeiro filme? Sim, seria. O problema é exatamente o que contar. Todos se lembram do monumental engano que foi
A Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras. E esse é o risco que correm as continuações de
Atividade Paranormal.
É ótimo, é gratificante poder presenciar algo novo e independente surgir e tomar proporções imensuráveis. No entanto, não vai ser desta vez que franquia
Jogos Mortais será sepultada. Todos sabem que o maior algoz de
Jigsaw não será ninguém além de ele mesmo.
Agradecimentos:
IGN e
Wikipedia