[REC]²

quinta-feira, 18 de março de 2010

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Se tem um filme que vem levantando opiniões divididas e discussões das mais diversas pelos fóruns e comunidades web afora este atende pelo nome de [REC]², continuação do pequeno fenômeno espanhol [REC], escrito e dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza em 2007. E a coisa toda vai além de simples trocas de elogios entre internautas exaltados, já que atinge até a websites conhecidos, do Bloody Disgusting, que adorou a produção, ao nosso Boca do Inferno, onde o redator Filipe Falcão massacrou a empreitada sem piedade.

De início a intenção de Jaume e Paco não era a de realizar uma continuação da sua obra, mas graças à repercussão mundial – e também a toda a grana que ela gerou – ambos resolveram seguir com a ideia e anunciaram a sequência, deixando em polvorosa os admiradores do trabalho original. E o que fazer para continuar uma trama que parecia esclarecida, sem a necessidade de maiores explicações? Dentre as escolhas o óbvio, mais do mesmo. Afinal, o primeiro filme consiste basicamente em um grupo de sobreviventes presos no interior de um prédio em quarentena devido a uma misteriosa infecção que transforma pessoas normais em hediondas criaturas emputecidas. Poderiam simplesmente seguir a lógica e enfiar um time de exterminadores dentro do recinto passando fogo em tudo o que vissem pela frente, dando um upgrade na histeria e no gore e usando a câmera como um artifício qualquer.

Porém, a decisão dos realizadores foi a de explicar a origem do mal, centrada em uma situação bastante conhecida entre os adeptos do gênero fantástico, mas um tanto dissonante ao entendimento do filme original. E não que isso seja ruim, pelo contrário, é uma escolha assaz corajosa, porém a execução das ideias foi o que acabou tornando viável uma comparação distinta entre os dois filmes. A continuação acaba tomando o papel de divisor, espécie de “ame ou odeie”. É muito difícil analisar a ambos partindo da premissa e chegar a um consenso no qual a história se torne perfeitamente aceitável. E o que pesa na balança é exatamente o fato de [REC]² ter dado tamanha guinada no enredo aproveitando-se de argumentos calcados e mal aproveitados. Analisemos o conceito em si. Só advertindo que daqui para frente estarão presentes spoilers bem mais pesados do que o martelo da menina Medeiros.

A trama e a reviravolta

Após quinze minutos sem qualquer tipo de contato com alguma alma viva dentro do prédio evacuado, o espectador é apresentado a um pequeno grupo de policiais de elite incumbidos de adentrar ao recinto em uma operação habitual de reconhecimento. Chegando lá, os homens são orientados a garantir a segurança de um técnico do ministério da saúde encarregado de tentar descobrir o que diabos estaria acontecendo no local. Uma vez dentro do prédio o que eles encontram é uma completa desolação, além de um misterioso símbolo religioso preso ao pé da escada do qual são imediatamente advertidos a não tocar pelo técnico. Seguindo as instruções eles começam a caminhar escada acima rumo à cobertura. Certo tempo depois, um dos policiais acaba tendo um terrível encontro com uma das pessoas infectadas, sendo imediatamente atacado. Ao correr para socorrê-lo a equipe se depara com um incontrolável ser, que em nada lembra o seu antigo parceiro. Logo são surpreendidos quando o suposto técnico começa a dizer algumas palavras munido de um crucifixo, fazendo o infectado acalmar-se, para logo aprisioná-lo em uma sala fincando um terço na entrada com uma faca.

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“Ele estava bem há cinco minutos, que merda de vírus faz isso?”

E é aí que vem o banho de água fria. Tomados pela fúria, os policiais conseguem arrancar a verdade do agente do governo. Ele não é exatamente um técnico do ministério sanitário, mas sim um padre enviado pelo vaticano para tentar conter uma possessão demoníaca que poderia espalhar-se, contagiando pessoas pela cidade e sabe-se lá mais por onde. O objetivo de sua missão seria encontrar um tubo de ensaio - escondido por outro padre que estudava o caso - contendo o sangue da garotinha inicialmente possuída para que se pudesse trabalhar em uma cura.

E é isso. Possessão demoníaca infecciosa passível de cura através de um antídoto.

Por que não deu certo

Apesar de o roteiro de [REC] nunca explicitar a idéia de que tudo não passava de um vírus misterioso, ele deixa bem claro que era essa a opção principal. Vide o agente sanitário, a história do cachorro infectado e as discussões sobre a origem da doença, com um leve toque de crítica ao preconceito na figura daquele senhor aparentemente gay. O único momento em que se faz uma alusão ao caso de possessão é na sequência final, com os jornais colados na parede. E olha que se você parar para dar uma olhada, vai achar manchetes lá no meio que não concordam com a hipótese, dizendo tratar-se de vírus mesmo. A própria gravação ouvida pelos personagens fica mais em cima do muro ainda, reforçando a teoria de que haveria uma garotinha doente, com a igreja tratando o caso como possessão e chegando a pensar em medidas que atingem ao cúmulo da intolerância. [REC]² descartou toda essa insinuação e acabou com o clima de mistério, simplesmente optando por um toque ainda mais sobrenatural.

Reiterando que não foi uma má ideia a de dar uma guinada na história, porém a forma como o assunto foi abordado, e por se tratar da continuação do filme que é, faz dessa uma tentativa equivocada de demonstrar genialidade. A produção tem sim os seus bons momentos. São várias cenas legais envolvendo pancadaria e tiros, cabeças explodindo (inclusive a de uma criança), suicídio, além de diversos dos atores que faziam parte do elenco original sendo trazidos de volta apenas para refazer os seus papéis de infectados/possuídos. Descobrir como estava o prédio evacuado pelo lado de fora com toda a balbúrdia ao redor também foi uma ótima sacada. Até a própria composição das câmeras dos policiais é uma coisa divertida de se ver. É como se o cinegrafista principal estivesse presenciando aos passos de um jogador de Doom 3 na vida real. Porém, nada disso salva a produção da sua condução de idéias mal trabalhadas. Leia-se: Roteiro absurdo. Quer alguns exemplos? Ok então.

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Logo que eles entram no prédio, pode-se notar uma pequena diferença em relação a como o mesmo estava ao final do primeiro filme e como está naquele momento. Se antes haviam diversos infectados/possuídos esperneando e correndo de um lado para outro, agora o lugar se encontra mais calmo do que um monastério tibetano. Aparentemente, aquele crucifixo pendurado ao pé da escada estaria contendo os infectados/possuídos, assim como faria o padre para prender o policial enzumbizado dentro de uma sala. Pergunta: Quem diabos colocou aquele negócio lá sendo que [REC] termina com uma mulher algemada no mesmo local? Hein?

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Claro. Ainda bem que os hereges do original não estavam usando nenhum símbolo religioso dependurado no pescoço ou tinham algum deles guardado na carteira, porque se não já resolvia logo o negócio e não haveria a necessidade de continuar.  Se bem que um duelo entre um número maior de pessoas contra os infectados/possuídos seria interessante. Os zumbis poderiam usar os seus poderes demoníacos sobrenaturais para fazer coisas impossíveis, tipo andar feito aranha pelo teto em marcha à ré. Mas espera um pouco… em [REC] não tinha ninguém andando pelos tetos, pombas!

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E você, caro leitor, se você fosse uma autoridade poderosa do vaticano e precisasse enviar um de seus melhores homens para realizar uma missão secreta a fim de resolver um assunto de extrema urgência, qual seria o seu critério de escolha? Teria que ser alguém experiente e capaz de agir com eficácia em qualquer tipo de situação que envolvesse o contato com o mal, correto? Pois bem, em determinada cena o pessoal acaba encontrando o tubo de ensaio contendo o sangue da menina Medeiros (a possuída-mor). Os homens do batalhão especial pronta e sabiamente se certificam da procedência do liquido ao ler uma etiqueta colada no tubo que dizia claramente:  Me-dei-ros. Mas não, segundo a palavra do especialista, o sangue deveria ser testado para que fosse comprovada a sua veracidade. Ai o Padre despeja um pouco do conteúdo em um pires, aponta uma cruz para ele e realiza uma pequena reza que surte efeito sobre o mesmo fazendo-o se incendiar. Pena que o bocoió se esqueceu de que havia dado o tubo de ensaio na mão do policial que estava logo atrás dele. Resultado? O maldito tubo também pega fogo. Manja muito de exame de sangue demoníaco o sujeito ou não?

Leve em consideração que encontrar o recipiente seria uma tarefa bastante difícil devido às condições em que ele estava sendo armazenado. Lembram-se daquele outro padre que foi enviado antes para averiguar a situação da garotinha possuída? Pois então, foi ele quem retirou a amostra e a guardou no tubo de ensaio dentro de um frigobar. E para garantir a segurança do material, o cidadão resolveu esconder a pequena geladeira em um duto de ar no teto de um dos andares. E como todo o cuidado é pouco, ele mesmo decidiu tomar conta do precioso liquido e também se enfiou para dentro do duto. E por lá ficou até morrer. Os policiais conseguiram achar o esconderijo ao passar pelo local e ouvir misteriosas batidas vindas do teto, provenientes de uma intervenção divina, talvez. Ai só foi preciso colocar o teto abaixo para encontrar não só o corpo mumificado do padre aventureiro, como também o frigobar que estava funcionando perfeitamente mesmo com o prédio sem energia elétrica. Fica a indagação. Ao invés de se enfurnar dentro de um duto de ar imundo, não teria sido muito mais fácil ELE MESMO levar a porra do tubo de ensaio para a autoridade religiosa mais próxima?

E olha que tudo isso mal toma meia hora do tempo de duração do filme. Lá pelas tantas aparece um grupinho de adolescentes idiotas que têm acesso ao prédio seguindo a um bombeiro e um morador através de uma entrada secreta, entrada essa que havia sido mencionada em [REC]. Ah, e eles também tem uma câmera. E nunca param de filmar, até mesmo quando estão rastejando pelo chão sob uma saraivada de balas disparadas pelos atiradores do lado de fora do prédio. Isso aí, aqueles mesmos atiradores competentes que deixaram a molecada entrar no lugar sem maiores dificuldades. Para você ter uma ideia da importância que os três energúmenos possuem na trama: Um deles é rapidamente infectado e os outros dois são trancados pelos policiais dentro de uma sala. E o padre utiliza o guri encapetado para tentar descobrir onde estaria se escondendo a famigerada menina Medeiros, já que os infectados/possuídos adquirem a curiosa característica de poder dar voz ao demônio principal. Quanto aos adolescentes restantes? Bom, eles continuam lá presos e não se fala mais deles até o final do filme.

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O final. Ah, o final! É quando entra em cena o conceito mais ridículo desenvolvido para essa continuação. O negócio é o seguinte, estão lá eles prestes a entrevistar o garoto possuído, quando de repente a repórter do filme anterior resolve dar as caras. Junto com ela, está o equipamento de vídeo do cameraman que a acompanhava. Aí o cinegrafista da vez coloca a câmera para funcionar e eles partem para a tentativa de arrancar alguma informação útil sobre o paradeiro da menina Medeiros, ainda na intenção de conseguir uma amostra de sangue. A eles é revelado que ela estaria na cobertura, porém “presa em trevas onde a luz não reflete”. O padre se lembra de um trecho bíblico a respeito de anjos caídos presos na escuridão e questiona a repórter sobre como ela havia conseguido enxergar a pequena endemoniada anteriormente. Visto que a mesma menciona a visão noturna da câmera de vídeo, o erudito representante do clero chega a conclusão de que a possuída só existe no escuro e então resolve utilizar o equipamento para procurá-la novamente. É a tecnologia a serviço da salvação. Será que o padre do duto de ar tinha uma dessas filmadoras com visão noturna também?

E lá se vão os nossos heróis rumo ao topo do prédio e desta vez sem serem atacados por nenhum dos infectados/possuídos, fato que será explicado na conclusão “surpresa”. Enfim, eles chegam até um corredor sem saída e quando apagam as luzes, tchanram, lá está uma porta sobrenatural. Isso mesmo, no claro, nada, no escuro, uma porta. E olha que no primeiro filme a cobertura era perfeitamente visível tanto no claro quanto no escuro. Aliás, a luz da câmera não havia sido danificada em [REC]? Pois é. Nessa de acende e apaga, eles acabam encontrando a capetinha dentro de uma banheira do além no melhor estilo “filme de horror oriental”, que também só existe na escuridão. Temos então a repetição da cena de esconde-esconde invisível até que a repórter resolve explodir as fuças da menina Medeiros com uma escopeta, para o protesto do indignado padre que ainda tinha a intenção de recolher uma amostra de sangue da possuída.  Oras, era só pegar a droga da câmera e dar uma olhada ao redor que ele iria encontrar uma quantidade considerável do liquido espalhada pelo local. E pronto, fim do problema. Afinal, não era acabando com a vida da menina que eles queriam resolver o assunto anteriormente?

Mas é então que o inesperado acontece. A repórter do nada se torna violenta e começa a moer o padre na porrada, insistindo em que ele dê a ordem para que eles fossem retirados de lá. Sob a negação do religioso, ela termina por meter um balaço no cinegrafista e revela que o espírito do mal agora habita o corpo dela. Ele havia sido transferido pela menina Medeiros através de uma larva passada de boca a boca. Ela então assassina o padre e usando a sua “influência maligna” se faz passar por ele solicitando através de um aparelho de reconhecimento de voz a liberação da única sobrevivente, no caso ela mesma, para que deixassem o corpo do padre emulado por lá, pois teria sido infectado, e para que prosseguissem com o plano de incendiar o lugar. Como ela sabia da intenção de queimar o prédio? Ah sim, era um demônio. Agora, recolher sangue? Esqueça, esse detalhe sequer é mencionado novamente. E acabou. Genial não? Uma larva demoníaca. Só não seria um pouco mais lógico que fosse a REPÓRTER quem não pudesse ser vista na claridade e não ex-possuída? Por mais sobrenatural que a história tenha se tornado, essa ideia simplesmente não faz sentido.

Conclusão

Como filme [REC]² é uma experiência deveras interessante, mas perde a credibilidade ao ser considerado realmente uma continuação. O conceito mais simples soa ridículo. Criar uma cura para uma possessão demoníaca que é transmitida através de mordidas e contato com fluídos corporais? No meu tempo possessão se curava com exorcismo. Assista a [REC]² diversas vezes se puder, mas como uma diversão passageira. Se estiver procurando uma história bem escrita, tensa e muito mais gostosa de ver, prefira a primeira versão. Aliás, tente rever [REC] levando em conta o aspecto de possessão e você terá uma ideia do quão estapafúrdia fica a experiência.

12 comentários :

Dr Johnny Strangelove disse...

Interessante ponto de vista, apesar do seu texto contar, alias, relatar todo o filme assim deixando o leitor sem surpresas do que pode acontecer, já que o próprio projeto foi feito para ser uma experiência que o espectador sinta na pele o horror, mas se bem que não tem isso no segundo.

A experiência de ter visto esse filme no cinema o prova quanto foi ridícula e vexatória. Um argumento incoerente e desastroso a tal ponto de transformar os argumentos do remake serem mais coerentes do que o segundo filme e uma direção que se preocupou mais em assustar do que envolver o espectador e quando se pensa que poderia piorar, vem o segundo ponto de vista que consegue transformar de vez o filme em uma comédia involuntária, assim criando uma das piores cenas do ano passado.

Nunca achei o primeiro filme uma obra prima do terror, mas sim uma alegoria de sustos vazios e sem conteudo e o segundo filme não só apenas reforça essa ideia, mas piora todo o tipo de situação.

Tenha um bom dia.

Edu Aurrai disse...

Valeu doutor! A intenção era essa mesmo, dirigir um ponto de vista aos que já haviam visto o filme. Obrigado pela visita e volte sempre! =]

Amanda disse...

Ai céus, estou completamente aterrozidada. Não pela completa falta de sentido do filme, ou pela idéia terrível de apagar a luz e encontrar a menina Medeiros. Mas meu, parou pra pensar que quando alguém espirrar perto de você, você pode acabar pegando um demônio? :O

phsms disse...

"Possessão demoníaca infecciosa passível de cura através de um antídoto."

rilitrosok!
uheahuaehuea

ainda bem que tem gostosa no filme :)

☾Velvet Isa ●๋• {Isa Nx}™® disse...

nããão vale... seu post ficou mais legal que o meu...
SUSAUHSAHUASHUSAUHSAHUSAHSUAUHAS

João Victor disse...

Obrigado pelo seu post!
Agora não preciso mais assistir a REC2!

lindomar disse...

interessante o post, mas eu gostei do filme claro que não é uma obra prima do terror, mas tratar uma possessão dessa forma como um virus foi bem criativo se não seria mais do mesmo, tipo super virus zumbis e blá-blá-blá.

Mas é claro gosto é que nem c*, cada um tem o seu

Blogueiras Compulsivas disse...

Estou doida para assistir!

Amei REC

*---------*

Marcel disse...

Com um roteirinho como esse, eu acho que o Edu fez mais é um favor para os leitores contando boa parte da história do filme.

Dessa forma poupa o pessoa de se decepcionar nos cinemas =x hehehe

Lady disse...

Que achado

amei seu blog parabéns


se quiser pode retribuir!!!

http://grudeichicletes.blogspot.com/

Evandro Saldanha disse...

Meu amigo, nossa, que texto, não consegui parar de ler, e olha que tentei, afinal não queria saber das cenas chaves... mas como você consegue prender nossa atenção... parabens, e como ainda não vi o filme, acho que vou ficar sem ver mesmo...
um abraço do seres do SextaCast, que para quem não conhece fizemos um cast sobre [REC].
um abraço e até em breve.

Pedro disse...

Muito bom o artigo,mas não concordo com ah ideia de pegar o sangue pelas paredes ou pelo chão, por que em varias partes do filme o padre menciona que seria nessecario o sangue original de meninas medeiros , é se a ideia era de acabar com o mal que se encontrava naquele lugar porque não evacuar todos os não infectados lacra tudo e queimar todo com tudo dentro para exterminar logo com isso,mas agora e só experar pra ver o [rec]3 que já saiu saber como acaba tudo

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